Por
Prof Ms Jorge Ricardo Menezes da Silva
Eu digo que o homo sapiens
é ao mesmo tempo o homo demens, capaz das maiores loucuras, até as mais
criminosas, as mais insensatas. Não se pode separar os dois, porque entre os
dois circula a afetividade, o sentimento, não existe racionalidade pura, até o
matemático completamente dedicado à racionalidade matemática o faz com paixão.
Por vezes me surpreendo
com minhas falas e ações. Em minha crença filosófica, entendendo que somos
produto e produtores do meio em que vivemos, numa reação dialógica, de um ir e
vir que exprime nossa realidade ao mesmo tempo convergente e divergente,
paralela e transversal, antagônica e complementar, por vezes somativa e por
outras subtrativa. Cito aqui como ilustração que quando fui ver Hamlet me
deparei com frases prontas que havia agregado ao meu jeito de ser, de viver e
conviver, antes de estar em contato com a obra de Shakespeare, tais como: “tem
algo de podre no reino da Dinamarca” e “existem mais coisas entre o céu
e a terra do que julga nossa vã filosofia”. Fico imaginando de onde viriam
estas falas. Decerto ouvi de alguém e foi ao encontro de minha visão do mundo e
das coisas, que pairou sob meu inconsciente.
Que coisa interessante é
se deparar com demonstrações da complexidade humana e das múltiplas influências
que sofremos e proporcionamos a outrem. Heráclito de Éfeso, reconhecidamente,
tem suas razões quando afirma:
Quando um homem atravessa um rio, nem
o rio, nem o homem são mais os mesmos. O homem leva um pouco do rio e o rio
leva um pouco do homem.
Assim somos
nós educadores, impregnadores e impregnados de valores intelectuais, morais e
sociais, elementos paradigmáticos de nossas relações interpessoais e
intrapessoais.
Realinhando
estes comentários, a educação, como ciência que trata do ensino e da
aprendizagem, é e está mergulhada nesta sinérgica mudança que se opera neste
início de século, marcada por rupturas significativas no pensamento ocidental,
sob a esfera de atuação das postulações de Heisenberg e seu princípio da
incerteza, da teoria autopoiética de Maturana e Varela, e do pensamento
complexo de Edgar Morin.
O princípio
da Incerteza de Heisenberg tem como premissa que essencialmente não
existe meio de medir com precisão as propriedades mais elementares do
comportamento das partículas atômicas. Ou melhor, quanto mais precisamente você
mensura um fenômeno – por exemplo, o movimento eletrônico -- menos precisamente
você tem inferência sobre outra -- nesse caso, sua posição. Mais precisão de
uma, menos precisão de outra. Em sua teoria fica claro que o determinismo e o mecanicismo
proposto por Descartes é limitado a análise de determinados fenômenos naturais,
possibilitando questionarmos a validade deste modelo para as ações científicas
e humanas. Transpondo este pensamento para as ciências sociais, traduzimos este
princípio como as lentes da física para a complexidade dos fenômenos, criação
da fissura necessária para rupturas que se operaram a posteriori.
Maturana e Varela postulam a Autopoiese que quer
dizer autoprodução. Os sistemas naturais, sociais e os, por fim, educativos são
autopoiéticos por definição, porque recompõem continuamente os seus componentes
desgastados. Trata-se de um sistema que se comporta tal qual uma cadeia
alimentar, sistema modelar biológico que demonstra a relação entre matéria e
energia e os fenômenos que regem a regulação da própria vida. Dr. Ian Malcolm, o caricato matemático de Jurassic Park nos diz:
A
história da evolução nos diz que a vida supera todas as barreiras. A vida se
espalha. Ocupa novos territórios. De modo doloroso, por vezes perigoso. Mas a
vida dá um jeito. Eu não queria bancar o filósofo, mas é isso aí.
A reforma
do pensamento é a bandeira de Edgar Morin, partindo das indicações de Pascal, “considero
impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tanto quanto conhecer o todo
sem conhecer as partes...” nos
remete a idealizarmos reformas no ensino para reformar o pensamento de modo a
superação de modelos ineficazes e ineficientes que visem a construção de um
sentimento de planetaridade, de identidade e vínculo com a própria existência
natural, social e humana.
O
pensamento sistêmico não é uma colcha de retalhos, é um mosaico, produzido,
reproduzido e construído por diferentes mãos e referenciais. Não há pai nem mãe
do pensamento sistêmico, diferentemente do cartesianismo que fora construído
num modelo patriarcal, engessado e inquestionável, acima do bem e do mal, um
deus.
Na
educação, espaço de reflexão e ação, não há outro rumo senão mudar o próprio
rumo. Superar o divórcio entre os saberes, por meio de estratégias que valorizem
a disciplinaridade, o conteúdo e os saberes construídos pela humanidade, por
meio de teias relacionais como propõem a interdisciplinaridade e a
transdisciplinaridade são ações impares que contribuem para a formatação humana
e a própria humanidade. O olhar necessário para ação necessária na direção e
sentido necessários.
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