quarta-feira, 28 de julho de 2010
OLHARES SOBRE JUNG NO COTIDIANO ESCOLAR
Nos estudos sobre a psique humana Jung está para Freud, assim como Vygotsky está para Piaget nos estudos sobre a cognição humana. Portanto, suas teorias são por vezes complementares, por vezes antagônicas, por vezes paralelas e por vezes transversais.
Não há como entender o desenvolvimento humano e os mecanismos que congregam o funcionamento da mente e suas implicações na aprendizagem sem mergulhar no fascinante e sedutor mundo da psicologia analítica de Jung, nas postulações do desenvolvimento psicossexual de Freud e, ainda, na doutrina da psicologia individual defendida por Adler, que nos proporemos em analisar em outra oportunidade.
O cenário estabelecido por Jung parte da premissa que se configuram quatro funções psicológicas fundamentais: o pensamento, o sentimento, a sensação e a intuição. Estas funções formam uma teia inter-relacional, visto que o olhar junguiano é uma visão holística e sistêmica.
O pensamento está conectado com a verdade, com avaliações provenientes de parâmetros onde imperam a impessoalidade, a lógica e racionalismo. O sentimento se alicerça na orientação emocional na tomada de decisões. A sensação se constrói pela percepção visual, auditiva ou cinestésica da realidade. A intuição considera relevante o processamento das informações em função de processos inconscientes construídos pela experiência e por objetivos futuros.
Para Jung, a singularidade de cada indivíduo se constitui neste aspecto porque cada um de nós somos o que somos devido a forma em que nossas funções psicológicas se nutrem e manifestam. Cada ser humano tem uma função dominante e uma outra auxiliar bem desenvolvida, se tornando latentes no comportamento humano apresentado pelo ser. Outras duas funções se comportam como “recessivas” e se manifestam no inconsciente. Face às considerações que esta inconsciência ser uma herança biológica e psicológica, este fato aproxima Jung das teorias inatistas.
O pensamento e o sentimento são racionais por natureza porque são mobilizadas pela abstração e pelo raciocínio. Já a sensação e a intuição são empíricas porque partem da experiência e da experimentação para mobilização dos esquemas mentais e ações humanas.
A importância e relevância destes estudos para o exercício docente são compreendermos que a mente humana, o elemento psicológico, um dentre os cinco parâmetros propostos por Edgar Morin, tem dimensões que precisamos nos ater de modo a produzirmos um ensino onde o objetivo maior, que é a aprendizagem, de fato ocorra, respeitando as características individuais.
Esta inquietação, no meu humilde ponto de vista, é algo que tem mobilizado e tirado da zona de conforto educadores que se preocupam com a educação e sua concretização. Dentro de nosso fórum de atuação, que é a educação básica, ficam as perguntas: Na concepção junguiana, qual a minha função psicológica superior e minha função psicológica inferior? Conhecendo a função psicológica superior e inferior de meus alunos eu conseguirei ter uma atuação mais eficiente ou isto é uma conversa de gente que pensa demais e age de menos? Sei lá...
OLHARES SOBRE AS RELAÇÕES DE PODER NA SALA DE AULA NA ÓPTICA FOUCAULTIANA
A relação professor & aluno é algo extremamente intrigante. O que leva uns professores serem especialistas em educação a distância mesmo estando em sala de aula. O que leva outros a serem sedutores e capazes de provocar a inquietação de modo que os jovens são mobilizados pelo discurso e não vêem a hora daquela aula.
A resposta é simples: afetividade. Aquele professor é educador. Envolve sua prática cognitiva em esferas procedimentais e atitudinais conduzindo ao mundo complexo do saber.
A receita de Marx é clara: “a história da sociedade é a história da luta de classes”. Educadores e educandos em sala de aula fazem deste espaço uma microfísica do poder, repetem modelos em micro escala da práxis social arraigada nas relações interpessoais de dominação com a existência de dominantes e dominados.
Freire argumenta que só existe opressor porque aquele existe que se submete a opressão e ocupa passivamente o lugar do oprimido. Aí esta a burguesia, a oprimida no feudalismo e a opressora no capitalismo. Lula lá também. Será este um comportamento natural ou uma construção social?
Foucault nos leva a refletir sobre a soberania, tirania, autoridade e autoritarismo nas relações de sala de aula. O professor com sede e gana de poder se coloca na mítica condição de deus, acima do bem e do mal, ele tudo pode, não pode ser questionado em suas decisões pelos pobres mortais, que são os alunos, isto mesmo a – lunos, sem – luz.
Sob esta égide, o professor (diferente do educador) submete o aluno (diferente de educando) a um processo – Contrato social empírico que se alicerça e parametriza em subversão por meio da coação e privação, de obrigações e interdições. Se algo sob o olhar do “todo-poderoso” foge ao padrão estabelecido, que sequer fora combinado, o peso do martelo de Thor (como um justo juiz) atua e o professor exclui, expulsa de sala, suspende de aula o aluno-infrator.
Ora, o que é isso? Que escola é esta? Um sistema prisional, que não recupera e muito menos educa ninguém, disfarçado? Este direito de punir se reveste sob a ética da defesa da manutenção do controle social. Mas, que controle é este se não há contrato? Se há contrato, como ele é mediado?
É claro que defendo a ordem e a disciplina. Mas defendo também a liberdade. Sou um democrata, não um tirano, onde tudo é proibido, ou um anarquista, onde tudo é permitido.
Portanto, se faz necessário avaliar de forma sistêmica e holística as ações docentes. Não se trata de uma acusação e sim de assumir posturas e responsabilidades.
O que leva um educador a encaminhar um educando a OE/Coordenação/Direção? Será que foram esgotados todos os recursos dialéticos pelo educador de modo a encaminhar um educando somente em casos necessários e onde a manutenção da ordem em sala esteja abalada? Encaminhar alunos desmedidamente não é ação prematura e uma transferência da responsabilidade da gestão da sala a outrem?
Os limites são necessários. Todavia, é uma estrada de mão dupla e não uma via de mão única.
OLHARES SOBRE O FRACASSO ESCOLAR: DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM OU DIFICULDADES DE ENSINAGEM?
Atualmente o fracasso escolar é um grande problema para o sistema educativo face aos prejuízos econômicos e sociais que encerram tal questão. Como já versa com grande propriedade o Prof Hamilton Werneck “se boa é a escola que reprova, bom é o hospital que mata”.
O comportamento mais comum nas instituições de ensino é atribuir ao educando a “grande culpa” pelo não aprender. Em outras situações atribui-se ao educador o fato de “não saber” estimular o aprendizado. Outras circunstâncias levam os educadores a encararem o saber como muito difícil e complexo para que o aluno entenda. Em outra linha afirma-se que os instrumentos de avaliação não servem para mensurar a qualidade do trabalho escolar.
Todavia, julgo pertinente efetuar alguns questionamentos cabíveis as múltiplas interpretações dadas preliminarmente a este fenômeno social e psicopedagógico:
• Por que o educando é o culpado? Será que ele não quer nada mesmo ou não há estímulos capazes de motivá-lo a aprendizagem?
• O educador está municiado de estratégias diferenciadas de aprendizagem e é capacitado ao exercício da docência em relação aos estilos de aprendizagem dos educandos?
• Os saberes administrados na escola são construídos de uma forma academicista ou contextual? Respeitam a linguagem e o desenvolvimento cognitivo do educando?
• A verificação do rendimento escolar privilegia aspectos quantitativos (saber, saber fazer) e qualitativos (saber viver, saber ser, saber conviver) de forma equilibrada ou se trata de um saldo bancário de quanto o educando é capaz apresentar em relação à cognição única e exclusivamente?
Não tenho pretensão alguma em apresentar respostas, meu objetivo é provocar a reflexão, mas se por um lado existe realmente portadores de dislexia (dificuldades com as palavras seja na oratória ou na escrita), de discalculia (dificuldades com os números, com os cálculos) de dispraxia (dificuldades com a motricidade) e de TDAH – transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, há, também, o exercício docente desconexo as premissas do desenvolvimento humano na perspectiva pentagramal biológico, físico, social, psicológico e espiritual, conforme proposições de Morin.
Quando coloco este ponto de vista trago a baila a execução dos planos curriculares que por vezes não respeitam os níveis estilos cognitivos e os esquemas de desenvolvimento dos educandos em face das postulações da teoria cognitiva de Piaget, da teoria psicossexual de Freud ou ao desenvolvimento psicossocial proposto por Eric Erikson e, portanto falham em sua premissa básica que é de conduzir a aprendizagem.
O Professor Celso Vasconcellos nos submete a pensarmos a superação da lógica classificatória e excludente - do “é proibido reprovar” ao é preciso garantir a aprendizagem indicando:
Devemos reconhecer que transformar a realidade é um tanto mais complexo do que parece à primeira visada de um olhar ingênuo ou voluntarista. Insistimos: não é qualquer mudança que interessa; temos constatado alterações na prática que não superam o problema fundamental da avaliação, por não estarem vinculadas a um novo projeto educacional (e social). O que está em jogo é, sobretudo, uma mudança de prática que venha acompanhada de uma mudança de concepção, em que o professor tenha uma autêntica práxis transformadora, e não uma prática diferente, contudo marcada por um caráter superficial, mimético. Nesta medida, torna-se relevante retomarmos aquilo que já está enraizado quanto à avaliação, visto que, para avançarmos, o desafio não é simplesmente construir novas concepções e práticas, mas desconstruir as enraizadas (no sujeito e nas estruturas), no caso, classificatórias e excludentes.
Em relação ao fracasso escolar, não há culpados. Mas, a responsabilidade pelo sucesso do trabalho escolar é do profissional da educação, do educador. Esta bola é nossa ou não é?
OLHARES SOBRE O DESENVOLVIMENTO MORAL
O termo moral é derivado do latim mores, que significa relativo aos costumes. Pode ser definido também como a aquisição do modo de ser conseguido pela apropriação ou por escalas de aquisição, onde se encontram o caráter, os sentimentos, a conduta, hábitos e atitudes individuais e/ou coletivas.
Logo , o termo moral significa tudo o que se submete a todo valor onde devem predominar na conduta do ser humano as tendências mais convenientes ao desenvolvimento da vida individual e social, cujas aptidões constituem o chamado sentido moral dos indivíduos.
O desenvolvimento humano sob a óptica da moralidade é fruto de estudos de dois expoentes da psicologia do desenvolvimento humano: Jean Piaget e Lawrence Kohlberg. Piaget pauta seus estudos no julgamento moral do educando como fruto de seu desenvolvimento bio-fisico e psicológico. Conforme a mente “amadurece” há uma tendência a que o indivíduo assimile e acomode os conceitos e valores sociais passando a vivê-los no seu cotidiano. Para Piaget existem fases do desenvolvimento moral, a anomia e a heteronomia; que são superadas conforme as pessoas vão ficando mais velhas e evoluindo em suas relações, até conquistar a autonomia.
A anomia caracteriza as crianças de até um ano e meio, que fortemente egocêntricas não conhecem o que é certo e o que é errado, são incapazes de seguir normas. Neste momento, o tipo mais forte de relação que estabelecem é o de afeto pelos pais.
A heteronomia é característica do momento que surge o respeito a regras que são impostas por pessoas mais velhas, que são exteriores à criança e ditadas de forma coerciva. Por isso se desenvolve um respeito unilateral em relação ao adulto, baseado em dois sentimentos: o afeto e o medo.
No entender de Piaget ser autônomo significa estar apto a cooperativamente construir o sistema de regras morais e operatórias necessárias à manutenção de relações permeadas pelo respeito mútuo. Na autonomia, as leis e as regras são opções que o sujeito faz na sua convivência social pela auto-determinação. Para Piaget, não é possível uma autonomia intelectual sem uma autonomia moral, pois ambas se sustentam no respeito mútuo, o qual, por sua vez, se sustenta no respeito a si próprio e reconhecimento do outro como ele mesmo.
Para Kohlberg a maturidade moral é atingida quando a pessoa é capaz de discenir senso de justiça de senso de legalidade; que algumas normas existentes podem ser moralmente erradas e devem, portanto, ser alteradas. Todo ser é potencialmente capaz de transcender os valores da cultura em que ele foi socializado, ao invés de incorporá-los passivamente. Este ponto central na teoria de Kohlberg e que representa a possibilidade de um terreno comum com teorias sociológicas cujo objeto transforma a sociedade. O pensamento pós-convencional, enfatizando a democracia e os princípios individuais de consciência , parece essencial norma da cidadania.
Kohlberg estudou o desenvolvimento da moral e elaborou a teoria dos estágios morais, pois teve a crença que o nível mais alto da moralidade exige estruturas lógicas novas e mais complexas do que as apresentadas por Piaget. Assim, segundo o autor, existem três níveis da moralidade.
O primeiro estágio é o nível pré-convencional que se apresenta pela moralidade heterônoma, onde "as regras morais derivam da autoridade, são aceitas de forma incondicional e a criança obedece a fim de evitar castigo ou para merecer recompensa" O indivíduo deste estágio, define a justiça em função de diferenças de poder e status, sendo incapaz de diferenciar perspectivas nos dilemas morais. Há neste nível um segundo estágio, o qual Kohlberg, chamou de moralidade de intercâmbio,pois inicia-se o processo de descentração, possibilitando ao indivíduo perceber que outras pessoas também tem seus próprios interesses, porém a moral ainda permanece individualista, fazendo com que estabeleça trocas e acordos.
O segundo estágio, foi chamado de nível convencional, o qual importa-se com o reconhecimento do outro e inclui dois estágios: o da moralidade da normativa interpessoal e o da moralidade do sistema social. No primeiro começa-se a seguir as regras para assim garantir um bom desempenho do papel de "bom menino" e de "boa menina", percebe-se uma preocupação com as outras pessoas e seus sentimentos. Já no segundo estágio, o indivíduo "adota a perpectiva de um membro da sociedade baseada em uma concepção do sistema social como um conjunto consistente de códigos e procedimentos que se aplicam imparcialmente a todos os seus membros.
O terceiro estágio denominado de nível pós-convencional como o mais alto da moralidade, pois o indivíduo começa a perceber os conflitos entre as regras e o sistema, o qual foi dividido entre o estágio da moralidade dos direitos humanos e o estágio dos princípios éticos universais. Neste nível, os comportamentos morais passam a ser regulados por princípios.
Como o objetivo maior da educação, segundo Edgar Morin, situada no contexto da globalização, é fortalecer as condições de possibilidade de emergência de uma sociedade-mundo. Esta seria composta por cidadãos protagonistas, conscientes e criticamente comprometidos na edificação de uma civilização planetária através de cidadania participativa. Cabe a escola e aos educadores mobilizarem esforços no sentido de entender e desenvolver ações de acordo com as faixas etárias em função das características de desenvolvimento próprias. Não há engessamento, os estágios não são castas.
Entretanto, há fenômenos comportamentais que precisam ser entendidos como próprios daquela fase de vida e a nós atuarmos em perspectivas de inclusão e não de segregação com práticas patrocinadas pelas cegueiras que se formam ao longo da práxis e que estruturam rotulações. Educar realmente é árdua tarefa. Cuidado é palavra de ordem. Observação é comportamento necessário ao educador comprometido com seu trabalho e com sua atuação responsável como hominizador da juventude. Para tanto, é preciso que nos hominizemos, pois para a educação moral o exemplo é o grande referencial. Conceitos tais como professor & educador e individualismo & coletividade são posicionamentos a serem refletidos e reavaliados, vocês não acham?
OLHARES SOBRE A COGNIÇÃO E A EDUCAÇÃO
O conhecimento é aquilo que deve ser considerado como os domínios entre as crenças e a verdade que o sujeito aprendente(cognoscente) estabelece com objeto a ser aprendido(cognoscível). O conhecimento supera as crenças porque ele é racionalmente justificado e comprovado, não se tratando de uma questão de fé. O conhecimento é crença verdadeira e justificada por meio da ciência.
O conhecimento não pode ser reduzido de forma simplista e disjuntiva a uma coletânea de informações. O conhecimento é uma construção sócio-histórica que responde às necessidades, expectativas e desejos da sociedade, não estando isolado da cultura e dos movimentos sociais de seu tempo.
A cognição explicita o ato ou processo de conhecer, que envolve atenção, percepção, memória, raciocínio, juízo, imaginação, pensamento e linguagem.
A atenção discrimina o processo cognitivo pelo qual a mente direciona e seleciona estímulos, estabelecendo conectividade entre eles.
A percepção é a função cerebral que atribui significado a estímulos sensoriais, obtidos pelos sentidos: visão, tato, olfato, audição, paladar, a partir de histórico de vivências passadas. Através da percepção o ser estabelece relações entre suas impressões sensoriais para atribuir significado ao seu meio.
A memória é a capacidade de reter, recuperar, armazenar e evocar informações disponíveis, seja internamente, no cérebro (memória humana), seja externamente, em dispositivos artificiais (memória artificial).
O Raciocínio é uma operação lógica, discursiva e mental. Neste, o intelecto humano utiliza uma ou mais proposições, para concluir através de mecanismos de comparações e abstrações, quais são os dados que levam às respostas verdadeiras, falsas ou prováveis. De premissas chegamos a conclusões.
Juízo é o processo que conduz ao estabelecimento das relações significativas entre conceitos, que conduzem ao pensamento lógico objetivando alcançar uma integração significativa, que possibilite uma atitude racional frente as necessidades do momento. E julgar é, nesse caso, estabelecer uma relação entre conceitos a fim de estabelecer uma escolha.
Imaginação é uma faculdade ou capacidade mental que permite a representação de objetos segundo aquelas qualidades dos mesmos que são dadas à mente através dos sentidos.
Pensamento é um processo mental que permite aos seres modelarem o mundo e com isso lidar com ele de uma forma efetiva e de acordo com suas metas, planos e desejos. O pensamento é considerado a expressão mais "palpável" do espírito humano, pois através de imagens e idéias revela justamente a vontade deste.O pensamento é fundamental no processo de aprendizagem. O pensamento é construtor e construtivo do conhecimento.
Linguagem é qualquer e todo sistema de signos que serve de meio de comunicação entre indivíduos humanos, e pode ser percebido pelos diversos órgãos dos sentidos, o que leva a distinguirem-se várias espécies de linguagem: visual, auditiva, tátil, etc., ou, ainda, outras mais complexas, constituídas, ao mesmo tempo, de elementos diversos. Os elementos constitutivos da linguagem são, pois, gestos, sinais, sons, símbolos ou palavras, usados para representar conceitos de comunicação, idéias, significados e pensamentos.
Entendidos, conceitualmente, os instrumentos que revelam a cognição é necessário entender porque determinadas propostas didáticas não criam vínculos com os educandos. Não criam vínculos porque não tem significado e significância com seu cotidiano. Não criam vínculos porque não revelam sintonia com o momento sócio-cultural infanto-juvenil. Não criam vínculos por problemas de linguagem, que está distante, inadequada ou incongruente com sua forma de ler o mundo e, por isso, não consegue levar ao pensamento, a abstração, ao estabelecimento de juízos, ao estímulo de percepções, ao chamar e ao prender a atenção e não conecta ou estimula o registro ou a consulta à memória.
O inatismo, uma das teorias do conhecimento da educação, se revela radical e distante dos propósitos educacionais deste início de século, porque postula que as capacidades intelectuais são congênitas, podendo ser desenvolvidas pela educação. O empirismo, outra teoria, também, se revela radical e afastado das recentes postulações e estudos da psicologia da aprendizagem, pois considera o ser humano como uma tábua rasa e por isso isento de traços sociais, psicológicos, biológicos, físicos e espirituais que conformam o seu âmago.
Uma teoria com forte aceitação junto ao meio educacional brasileiro é o socioconstrutivismo ou sociointeracionismo que apresenta a somatização dos aspectos convergentes, paralelos e transversais das concepções piagetianas e Vygotskyanas valorando e explorando as perspectivas da construção do conhecimento com a amplitude óptica social e cultural dentro de uma olhar histórico, sintonizado com a realidade contextual humana local e global.
Como vai a cognição em sua aula?
OLHARES SOBRE A PSICOPEDAGOGIA NA SALA DE AULA
Por Prof Ms Jorge Ricardo Menezes da Silva
“PENSAR É PROCURAR POR SI MESMO, É CRITICAR LIVREMENTE E É DEMONSTRAR DE MANEIRA AUTÔNOMA. O PENSAMENTO SUPÕE, PORTANTO, O LIVRE JOGO DAS FUNÇÕES INTELECTUAIS, E NÃO O TRABALHO SOB COERÇÃO E A REPETIÇÃO VERBAL”.
Jean Piaget
É preciso, salutar e necessário superar estratégias de ensino que valorizem exclusivamente a memorização. Refiro-me a memorização como um instrumento bancário, verdadeiros “depósitos” de conteúdos que implicam na edificação de saberes que sem alicerce, que se perdem em si próprios. Perdem-se em si próprios pela inexistência de contextos e interpretações com a realidade do educando. Sem contexto não cria afetividade, não afeta, não tem vínculos, não proporciona o saber fazer, o saber ser, o saber viver e o saber conviver.
Esta é uma perspectiva que a educação atual tem de nocividade, uma geração de reprodutivistas, que mal conseguem responder as singularidades de questões conceituais e procedimentos mecanicistas. Se algo esta fora do esquema convencional de leitura de fatos e dados não cria conectividade, e como este educando é de fato um “aluno” na etimologia do termo, um sem luz, precisa de um professor para iluminá-lo, como se este fosse o detentor do saber, doce ilusão proposta pelos ambientalistas.
Outra perspectiva é o olhar sobre os estilos de aprendizagem. De que forma os educandos constroem o conhecimento. Parece ser algo subjetivo e inconstante, sem fundamentação, para mentes reducionistas e pensamentos fragmentados. Provavelmente, este seja um caminho extremamente interessante a ser percorrido pelos professores que queiram ser de fato educadores.
Face ao referencial piagetiano e aos esquemas de aprendizagem propostos por ele podemos postular que a partir de um desequilíbrio nos esquemas cognitivos é possível provocar a aprendizagem. Isto mesmo é uma provocação que nos tira da zona de conforto, que estimula. Ora, não é nos estímulos que devemos atuar? Como alegoria a este pensamento trago a narrativa de Rubem Alves:
Eu era pequeno. Na casa do vizinho havia uma árvore carregada de frutinhas vermelhas, pitangas. Fiquei sonhando comê-las. Mas elas estavam do outro lado do muro, longe das minhas mãos. Aí o meu desejo chamou a Inteligência e lhe disse: "Diga-me o que fazer para comer as pitangas!" A Inteligência obedeceu e me disse: "É fácil. Basta que você construa uma maquineta de roubar pitangas. Uma maquineta de roubar pitangas se faz assim. Primeiro, é preciso encompridar o seu braço. Para isso use um cabo de vassoura. Mas um braço comprido não basta. É preciso colocar uma mãozinha na ponta. Amarre uma lata de massa de tomates vazia na ponta do cabo de vassoura. E faça um dente na lata, para prender a pitanga..." Foi o que eu fiz. E roubei e comi todas as pitangas que queria. Primeiro foi o Sonho. Depois a Inteligência... Os Sonhos fazem pensar.
Fica, então entendido que a “inteligência” é mobilizada em face de uma motivação. Qual a motivação existente em nossas aulas de modo a provocar a inteligência na busca de soluções para problemas cotidianos? Quais são os sonhos que provocam o pensamento em nossas aulas? Questões pertinentes, vocês não acham?
Na linha de como nossos cognoscentes fazem a leitura de mundo é preciso concretizar aulas que privilegiem os múltiplos estilos de leitura dos educandos. Se são visuais, auditivos ou cinestésicos. Os visuais atuam obviamente vendo, sendo capaz de fazer uma imagem imediata do que está recebendo como informação. Os auditivos ouvindo, sendo capaz de montar uma história com a informação que está recebendo. Os cinestésicos fazendo ou executando, sendo capaz de guiar-se pela experiência tátil-motora, interagindo com o meio e com outrem.
Para ampliar as possibilidades de um ensino mais sistêmico e capaz de agregar valor aos diferentes estilos de leitura de mundo, seguem abaixo algumas “receitas” de como atuar para atingir os diferentes públicos presentes na sala de aula:
· Visuais: apresente resumos usando anotações, tabelas, esquemas, desenhos, fluxogramas, gráficos e outros recursos parecidos; Utilize gestos marcantes, pois o modo como ensina (na hora de lembrar sobre determinado assunto), ajuda na visualização o modo como foi passada a informação.
· Auditivos: Efetue leituras dos conteúdos de forma dialética; confronte os pontos de vista; estimule a discussão dos conteúdos; conte estórias, vincule os conteúdos a questões cotidianas que afetem o educando.
· Cinestésicos: ministrem aulas dinamicamente, com alternações de voz, que façam movimentos com os braços, andam para lá e para cá, escrevem no quadro enfim, tudo o que tenha relação com movimento, alternância. Faça experiências práticas sobre o assunto, pesquisas, exercícios, atividades em laboratório.
Outros aspectos relevantes existem, mas que tal iniciarmos um olhar, e inclinarmos nossas energias para outros focos que mobilizem a aprendizagem, afinal de contas, uma jornada começa com o primeiro passo, como diria Lao –Tse.
terça-feira, 27 de julho de 2010
OLHARES SOBRE O MUNDO ATUAL E A UTOPIA EDUCACIONAL
Por Prof Ms Jorge Ricardo Menezes da Silva
O mundo atual é, muitas vezes, um mundo de violência que se opõe as à esperança posta por alguns no progresso da humanidade. A história humana sempre foi conflituosa, mas há elementos novos que acentuam o perigo e, especialmente, o extraordinário potencial de autodestruição criado pela humanidade no decorrer do século XX. A opinião pública, através dos meios de comunicação social, torna-se observadora impotente e até refém dos que criam e mantém os conflitos. Até agora, a educação não pôde fazer grande coisa para modificar esta situação real. Poderemos conceber uma educação capaz de evitar os conflitos, ou de os resolver de maneira pacífica, desenvolvendo o conhecimento dos outros, das suas culturas, da sua espiritualidade.
Jacques Delors
Confesso que fiquei perplexo diante da análise estarrecedora dos “novos tempos” narrados na entrevista realizada pelo jornal O GLOBO com o traficante Marcola, líder do PCC, em 2006. Recebi o material na forma de slides de uma amiga educadora, gestora e proprietária de escola no Rio de Janeiro.
A razão da perplexidade é o da visão apocalíptica de nossa sociedade. Da nossa maneira de encarar e gerir os gargalos sociais ao longo de décadas. A grita social é de longa data. No entanto, nos fizemos de cegos, surdos, mudos e tetraplégicos, mesmo dotados de todas nossas possibilidades, porque simplesmente nos utilizamos da negação de que trata a teoria Freudiana, tentamos a todo momento não aceitar as realidades como fatos, fantasiamos o que nos perturba o ego. Marina Colasanti, diz em EU SEI, MAS NÃO DEVIA:
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Os resultados de décadas de ações políticas populistas e de assistencialismo sem sérias intervenções que mantiveram centenas, milhares e agora milhões na linha marginal da sociedade estão aí. Vamos continuar negando?
Como eu não quero e nem devo me acostumar, pego minhas armas, as palavras. E digo não a negação. Entendo que não fizemos o dever de casa. Não fizemos a manutenção necessária. Não corrigimos erros históricos e muito menos planejamos ações de curto, médio e longo prazo para que nossas cidades estejam preparadas para as transformações condicionadas pelo crescimento populacional e econômico.
Um exemplo atual desta problemática é a região da Costa Verde, no litoral sul do Rio de Janeiro. O porto de Itaguaí, a Companhia Siderúrgica do Atlântico são realidades, respectivamente, em revitalização e ampliação do potencial econômico do estado. Uma ótima iniciativa. Todavia, transeuntes agonizam por horas perdidas em um trecho relativamente pequeno, de poucos quilômetros, que já poderia ter sido sanado se a ponte sobre o canal de São Francisco, há anos com problemas estruturais tivesse sido consertada.
Fora isso, além da infra estrutura física, pergunto: será que a população de Itaguaí e regiões circunvizinhas tem recebido as melhorias qualitativas sociais que devam acompanhar o crescimento econômico?
Retomando a discussão inicial, saí da perplexidade, e vencendo a letargia que me acorrentava e o desejo de enterrar a cabeça, como uma avestruz, comecei a indagar e buscar respostas para minha ansiedade. Achei um caminho, reli a entrevista e encontrei uma pseudo cultura. Vi elementos que revelavam conhecimento, mas não sabedoria.
Reencontrei no meu eu e no nós, na educação o caminho para trilharmos e construirmos uma sociedade mais igualitária, mais humana. Lembrei o exemplo do quebra-cabeças, uma inspiração de COMO CONSERTAR O MUNDO, nos escritos de Gilberto Cotrim:
Um cientista vivia preocupado com os problemas do mundo e estava resolvido a encontrar meios de minorá-los. Passava dias em seu laboratório em busca de respostas para suas dúvidas.
Certo dia, seu filho de sete anos invadiu o seu santuário decidido a ajudá-lo a trabalhar. O cientista, nervoso pela interrupção, tentou que o filho fosse brincar em outro lugar. Vendo que seria impossível removê-lo, o pai procurou algo que pudesse ser oferecido ao filho com o objetivo de distrair sua atenção. De repente deparou-se com o mapa do mundo, o que procurava!
Com o auxílio de uma tesoura, recortou o mapa em vários pedaços e, junto com um rolo de fita adesiva, entregou-o ao filho dizendo:
-
Você gosta de quebra-cabeças? Então vou lhe dar o mundo para consertar. Aqui está o mundo todo quebrado. Veja se consegue consertá-lo bem direitinho! Faça tudo sozinho.
-
Calculou que a criança levaria dias para recompor o mapa. Algumas horas, depois, ouviu a voz do filho que o chamava calmamente:
- Pai, pai, já fiz tudo. Consegui terminar tudinho! -
A princípio o pai não deu crédito as palavras do filho. Seria impossível na sua idade ter conseguido recompor um mapa que jamais havia visto. Relutante, o cientista levantou os olhos de suas anotações, certo de que veria um trabalho digno de uma criança. Para sua surpresa, o mapa estava completo. Todos os pedaços haviam sido colocados nos devidos lugares.
-
Como seria possível? Como o menino havia sido capaz?
-
- Você não sabia como era o mundo, meu filho, então como conseguiu?
- Pai, eu não sabia como era o mundo, mas quando você tirou o papel da revista para recortar, eu vi que do outro lado havia a figura de um homem. Quando você me deu o mundo para consertar, eu tentei mas não consegui. Foi aí que me lembrei do homem, virei os recortes e comecei a consertar o homem que eu sabia como era. Quando consegui consertar o homem, virei a folha e vi que havia consertado o mundo.
Mesmo diante das adversidades que nos impõem os sistemas educacionais, deixemos ecoar no nosso ser e agir docentes o que propõe o bom e velho Sêneca que tenhamos sempre em mente que somos responsáveis pelo bem que deixamos de fazer.
Fica a lição trazida por Daniel Goleman que devemos investir na alfabetização emocional da mesma forma em que investimos na alfabetização cognitiva. Fica a lição de Richard Wolman que devemos pensar com a nossa essência humana, a conciliarmos racionalidade e espiritualidade, entendendo a nossa complexidade transcendental que não pode ser matematizada, de forma aritmética, como muitos dizem, que somos razão e sensibilidade, criando porcentagens para isso. Tal ação é reducionismo.
Utopias? Sonhos? E porque não? O mundo é aquilo que fazemos dele.
OLHARES SOBRE O PAPEL DA ESCOLA EM TEMPOS DE BARBÁRIE
Por Prof Ms Jorge Ricardo Menezes da Silva
A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas. Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação. Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie. Mas não se trata de uma ameaça, pois Auschwitz foi a regressão; a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão. E isto que apavora. Apesar da não-visibilidade atual dos infortúnios, a pressão social continua se impondo. Ela impele as pessoas em direção ao que é indescritível e que, nos termos da história mundial, culminaria em Auschwitz. Dentre os conhecimentos proporcionados por Freud, efetivamente relacionados inclusive à cultura e à sociologia, um dos mais perspicazes parece-me ser aquele de que a civilização, por seu turno, origina e fortalece progressivamente o que é anticivilizatório. Justamente no que diz respeito a Auschwitz, os seus ensaios. O mal-estar na cultura e Psicologia de massas e análise do eu mereceriam a mais ampla divulgação. Se a barbárie encontra-se no próprio principio civilizatório, então pretender se opor a isso tem algo de desesperador.
Adorno
Prezados amigos educadores, incontáveis condições sociais objetivas, dentre elas podemos destacar a ausência de políticas públicas de educação, saúde e habitação, empurraram a humanidade para a barbárie. Se faz notória em todos os recantos de nossa cidade, como uma amostra do que acontece em nosso país e em outros cantos do mundo, a emergente falta de valor a dignidade humana que tem sido a grande tônica dos noticiários na TV, nos jornais impressos, no rádio e na internet.
Infelizmente vivemos em um mundo de contradições onde condições geopolíticas comparáveis à Suécia se confrontam com outras comparáveis as ocorrências emblemáticas das experiencias sudanesas de uma guerra infindável, de valores invertidos, de interesses pessoais. Não estou falando de outro lugar do mundo, estou falando do Rio de Janeiro, da cidade que poeticamente foi apelidada de Cidade Maravilhosa.
Há dezenove carnavais atrás, o bom e velho Império Serrano cantou em prosa e verso queria novamente ver o Rio dono do samba e do grande futebol, ter um forte banco na praça e que não fosse comitê eleitoral. Os símbolos culturais de uma cidade, com problemas crônicos de transporte, atualmente dominado por transporte alternativo, o que poderia ser uma alternativa virou regra, atendendo interesses a moda de Harry Potter, daquele que não pode ser nomeado.
Com problemas de violência, que ficava dentro das comunidades, que se avolumou e hoje as comunidades, tal qual as cidades-estado da antiguidade tem seus tribunais e conjunto de leis, que enquanto estavam no âmbito interno e não afetavam aos que vivem sob a tutela parcial ou total do estado, se fizeram de cegos. Hoje a barbárie, fecha o comércio, pára os transportes, suspendem as aulas, atacam delegacias e até invadem quartéis.
Nós os educadores, temos que avançar para além da perplexidade, precisamos agir como corpo docente, de forma racional e sistêmica, contribuindo naquilo que no concerne, que é a educação no sentido de criar laços de afetividade. Modelos de violência moral tais como o da chantagem (se vocês não se comportarem vou fazer uma prova de arrebentar), o do desespero/desequilíbrio (vou mostrar quem manda aqui!Fora de sala. Ou Você ou eu) e o da crueldade (você é burro assim mesmo ou fez cursinho) não são mais cabíveis.
Devemos investir nas relações interpessoais, valorizando potencialidades cognitivas e afetivas, hábitos e atitudes que valorizem a pessoa humana que habita o âmago de cada educando. Devemos investir na compreensão do outro, na percepção das interdependências, na cooperação mútua, no exercício do falar e no ouvir, no respeito a si próprio e ao outro, na compreensão da pluralidade de idéias e concepções.
Um bom modelo a ser seguido é o da professora Erin Gruwell, narrado no filme Escritores da Liberdade, que diante de um cenário de exclusão e discriminação a adolescentes vítimas das turbulências sociais, como gangues, drogas e fragmentação da família, consegue sobrepujar incontáveis adversidades e transformar seus alunos em gente, hominizar os humanos.
Para finalizar, Gonzaguinha deixa a receita:
Ontem o menino que brincava me falou
Que hoje é semente do amanhã
Para não ter medo que esse tempo vai passar
Não se desespere não, nem pare de sonhar
Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar
Fé na vida, fé no homem, fé no que virá
Nós podemos tudo
Nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será
Despeço-me no espírito de Fernando Pessoa, que nos indica que navegar é preciso, com o propósito de engrandecer a pátria e contribuir para evolução da humanidade.
OLHARES SOBRE O ATO DE APRENDER
Por Prof Ms Jorge Ricardo Menezes da Silva
O aprender é uma das mais significativas ações humanas. Pelo aprender somos capazes de desenvolver nossas potencialidades de modo a expressá-las por meio do desenvolvimento de competências, habilidades, hábitos e atitudes.
O ato de aprender é algo intrigante e, no meu humilde ponto de vista, atividade que necessariamente precisa ser visitada pelo educador que deseja ensinar de forma a contribuir com a transformação dos comportamentos cognitivos, afetivos e psicomotores.
Faz-se importante o entendimento de diferentes ópticas que visitam a aprendizagem humana. A epistemologia genética de Piaget é um importante receituário na formatação de concepções a respeito da construção do conhecimento por parte do educando. Ela parte da premissa que a aprendizagem se constitui por meio de estímulos que causam desequilíbrio nos esquemas cognitivos de modo a provocar a acomodação e posterior assimilação dos saberes.
Um outro olhar sobre o ato de aprender, ainda, sob a óptica piagetiana refere-se à questão da maturidade bio-psicológica em função das faixas etárias. Na idade escolar do ensino fundamental, crianças entre seis e doze anos estão no estágio das operações concretas, caracterizado pela manipulação de saberes de forma palpável e observável. Os adolescentes apresentam características do estágio das operações formais fato que permite a hipotetização na construção de argumentação e elaboração de propostas.
Outra visão altamente importante no que se refere ao ato de aprender é ligada à gnose, isto é, como se dá a percepção dos saberes. Existem incontáveis teses que fundamentam este fenômeno da psique humana.
A linha observada por Kenneth e Rita Dunn estuda que a percepção humana atua no estilo de leitura, na forma ou formas latentes que o ser humano percebe o mundo, se de forma visual, auditiva ou cinestésica.
Outra linha refere-se aos estudos de sobre a dominância cerebral conforme estudos de Gregorc, da forma como se organizam as informações em nossa mente. Se o educando tem sua percepção balizada pelo hemisfério direito (intuitivo e criativo) ou pelo hemisfério esquerdo (lógico e linear).
A leitura de Gardner a respeito da inteligência estrutura a mente como uma teia relacional entre diferentes inteligências que estabelece uma mediação entre os fatores biológicos, cognitivos, psicológicos e sócio-culturais envolvidos no ato de aprender e na construção da própria aprendizagem.
Dado ao exposto, confere-se ao ato de aprender uma leitura complexa de ser entendida. O educador como facilitador da aprendizagem deve ter consciência de seu papel na condução de um processo de ensino efetivo de forma que a aprendizagem como objeto e objetivo do ensino ocorra, de modo a agregar valor à formação humana nas perspectivas intelectual, moral, afetiva, atitudinal conduzindo ao saber, ao saber fazer, ao saber ser, ao saber viver e ao saber conviver.
Ensinar dá trabalho, isto é fato. Entretanto, o resultado é motivador e não há dinheiro que pague a satisfação pela superação do cumprimento do dever, simplesmente.
“É a sublimação do professor que de fato transformou-se em educador”.
OLHARES SOBRE O DESENVOLVIMENTO ESTRATÉGICO DA ZONA OESTE DO RIO DE JANEIRO E DAS CIDADES CIRCUNVIZINHAS
Por Prof Ms Jorge Ricardo Menezes da Silva
Para quem é nascido e criado na região, como é o meu caso, entendemos que os cenários de exclusão social acentuado por anos a fio de abandono político que relegaram a educação, a saúde pública, a habitação, a cultura e a segurança uma herança maldita que proporcionaram a emergência crítica de problemas crônicos da ecologia seja na ordem natural, social e humana.
Os reflexos deste abandono estão no transporte rodoviário e ferroviário precários, que se demostraram na contramão dos processos de ocupação, seja ordenada ou a desordenada, esta última “patrocinada” por interesses de pessoas que buscavam sua promoção social pela política, e de crescimento populacional. Estão, também, na malha rodoviária onde as principais artérias são lotadas de buracos devido a pavimentação precária e sem a manutenção adequada, seja a corretiva, seja a preventiva.
Outro aspecto de suma relevância encontra-se na segurança. Hoje um tiro na zona Sul estampa a primeira página dos principais jornais impressos e se torna ancora nos telejornais. Aqui, durante o dia e a noite ouvimos e convivemos com sons pro vindos da artilharia entre marginais, fechamento de vias públicas e de escolas, uma sociedade refém.
Entendemos e consideramos que a educação nas principais economias do mundo é encarada como o investimento em capital humano, capaz de deslanchar o desenvolvimento social, cultural, científico e tecnológico que alavancam o desenvolvimento econômico.
Devemos encarar que discursos são palavras vazias até que alguém lhes dê significado e significância. Qual o desenvolvimento que de fato queremos? A implantação do complexo industrial e a ampliação do parque já existente garantirá sustentabilidade para região? Por si só garantirá a empregabilidade do povo de Santa Cruz, Itaguaí, Seropédica e Mangaratiba? Que conjunto de ações e práticas estão sendo criadas para fortalecer e tornar mais efetiva as condições locais, principalmente para aqueles que vivem e convivem nos cenários de exclusão?
Consideramos que o investimento social capaz de atender as demandas do desenvolvimento econômico devem estar pautados na formação de uma rede entre as organizações que atuam na região, apoiando a cooperação institucional e proporcionando uma força mais coletiva as reivindicações que atendam de forma mais plena aos anseios, desejos e necessidades da região.
Estas decisões históricas devem ser tomadas porque ao longo do século XX testemunhamos incontáveis fracassos de sonhos do nosso destino coletivo. O tempo exige uma série de ações que possibilitem a emergência de um novo agir em prol das comunidades que compõem a nossa cidade e o nosso estado.
Este é um sonho possível e a educação básica e profissional um caminho, que como diz o poeta um caminho se faz ao caminhar. Caminhemos, então.
OLHARES SOBRE A INDUSTRIALIZAÇÃO, O EMPREGO E A EDUCAÇÃO
Por Prof Ms Jorge Ricardo Menezes da Silva
No contexto dos embates que se travam hoje na sociedade brasileira na busca de romper com todas as formas de exclusão social e, nos interstícios das possibilidades concretas de constituir-se um industrialismo de um novo tipo e processos educativos não imediatistas que concorram para formação omnilateral e, portanto, para os processos de emancipação humana a busca do sentido radical de escola unitária, no plano do conhecimento e no plano político-organizativo, é fundamental.
Gaudêncio Frigotto
Rio de Janeiro, setembro de 2009. Diariamente a mídia, nas vertentes escrita, falada e televisada põem em sua pauta o desenvolvimento econômico de nosso estado. Ficam em evidência a potencial industrialização da zona oeste da cidade, assim como as cidades vizinhas: Itaguaí, Seropédica, Mangaratiba, Nova Iguaçu.
Além de Thyssen Krupp – CSA, temos a Vale na Ilha de Guaíba, o Porto de Itaguaí, as instalações portuárias da Usiminas, o arco rodoviário, a ampliação da Gerdau-Cosigua, a base terrestre do pré-sal da Petrobras.
A industrialização está de vento em popa, o emprego em qualidade e quantidade, também. O problema reside na orbe social, com a inclusão das pessoas residentes na região nas empresas. Hoje a exigência mínima para que as pessoas atuem nas grandes empresas em funções operacionais é a conclusão do ensino médio.
O fato é que muitas pessoas que moram nesta região não dispõem deste nível de ensino. A maioria que dispõe da etapa imediatamente anterior, o ensino fundamental completo, são analfabetos funcionais, isto é, são pessoas que embora tenham o certificado do ensino fundamental, não gozam de competências cognitivas mínimas estabelecidas para os concludentes desta etapa. A grande maioria lê com dificuldades, se atrapalham com a interpretação de textos simples e não são capazes de realizar operações aritméticas com números reais.
Se por um lado a qualificação educacional da população é um dos gargalos do processo, outro reside na capacitação docente para dar conta das demandas e exigências educacionais do momento sócio-histórico. A escola, como instituição do estado, está a margem do processos sociais. Não participa das discussões, a grande maioria é uma marionete das políticas na educação e não de uma política de estado para a educação.
O resultado deste fenômeno é a acentuação crônica da exclusão social. A educação pede socorro, agoniza em sua função social de permitir ao educando sua ascensão e como o dito “poder paralelo” se mostra mais eficiente e “mais poderoso”, pelo exercício da coerção, a sociedade perde sua batalha diária. De que adianta ter escolaridade se esta não garante minha inclusão pelo emprego, que me trará dignidade?
Precisamos salvar a escola, dispor de políticas públicas sérias que possibilitem as pessoas retornar aos bancos escolares a fim de que a reeducação escolar ocorra nas esferas cognitiva, atitudinal e procedimental.
Este é um compromisso. Dispor de uma escola unitária onde se desenvolva o sapiens e o faber, onde a intelectualidade e a motricidade humanas estejam em comunhão.
OLHARES SOBRE O PAPEL DAS ORGANIZAÇÕES PARA O TECIMENTO DE REDES DE EDUCAÇÃO
Por Prof Ms Jorge Ricardo Menezes da Silva
Vou começar esta reflexão mergulhando na sabedoria das argumentações de alguns pensadores. Francamente, não irei me preocupar se academicamente eles fazem parte de uma mesma linha filosófica pois, creio que cada um deles independente de suas escolhas e escolas, tentam agregar valor a existência humana e por mais que alguns deles tenham sido contaminados pelo cartesianismo e tenham analisado fragmentos da realidade e não o todo, suas contribuições são, de fato, observações sobre as vivências, necessidades, desejos, anseios e receios de quem vive e convive.
O que é a complexidade? A primeira vista, a complexidade é um tecido (complexus: o que é tecido em conjunto) de constituintes heterogêneos inseparavelmente associados: coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Na segunda abordagem a complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos que constituem o nosso mundo fenomenal.
Edgar Morin
A transmissão dos atributos específicos, que distinguem o homem, se faz por uma via que é social, como eles o são: essa via é a ação educativa. Ela é fenômeno eminentemente social.
(...) só uma cultura amplamente humana pode dar às sociedades modernas os cidadãos de que elas têm necessidade.
Emile Durkheim
A noção de separação seria desprovida de sentido se nós não tivéssemos começado a religá-las (como margens do rio), os nossos pensamentos finalizados, nas nossas necessidades, na nossa imaginação.
Georg Simmel
Não haveria cultura nem história sem criatividade, sem a liberdade sendo exercida ou sem a liberdade pela qual, sendo negada, se luta. Não haveria cultura nem história sem risco, assumido ou não, quer dizer , risco de que o sujeito que corre se acha mais ou menos consciente. Posso saber agora que riscos corro, mas sei que , como presença no mundo, corro riscos. È que o risco é um ingrediente necessário à mobilidade sem a qual não há cultura nem história.
Paulo Freire
O mote, isto é, a idéia expressa nos discursos das empresas é que a educação, uma vez sendo o instrumento de perpetuação da humana, no âmbito sociocultural e tecnocientífico, deve preparar para o exercício da cidadania e qualificar a pessoa para o mercado de trabalho.
Preparar para o exercício da cidadania significa atribuir criticidade, multiculturalismo e respeito a diversidade. Qualificar para o mercado de trabalho é habilitar para o exercício profissional agregando ao educando valores intelectuais, sociais, morais e espirituais que permitam o trabalho em equipe, a emergência do espírito criativo, o empreendedorismo, a polivalência e a visão sistêmica, dentre incontáveis parâmetros exigidos na contemporaneidade.
Ora, a escola deve ser estruturada e se estruturar para ser ambiente que dê as respostas as demandas humanas. A educação precisa ser munida e se municiar das ferramentas culturais que permitam a emergência. A grande questão é do como fazê-lo? Como estar munido e se municiar das necessidades da vida no hoje e para o amanhã? Como intervir nas realidades de forma a integrar o ser constituindo-se e constituindo-lhes instrumentos cognitivos, procedimentais e atitudinais sintonizados com nosso tempo?
A resposta é simples e literalmente, como diz a canção de Ivan Lins: Depende de nós / Se esse mundo / Ainda tem jeito / Apesar do que O homem tem feito / Se a vida sobreviverá, esta se construirá com conscientização, com consciência mais ação, com argumentação e elaboração de propostas de intervenção na realidade.
A existência de fóruns de debates é um caminho salutar para a construção de novos horizontes, não precisamos aguardar que sonhadamente um super – herói venha nos salvar.
Para isso as pessoas devem se colocar a disposição e não tão somente repetir frases prontas, lembram do mote? Temos que sair de nossos grilhões e, com a mão na massa, fazermos o que é necessário, o que é salutar, o que é vital. Vamos unir esforços?