terça-feira, 27 de julho de 2010

OLHARES SOBRE O PAPEL DA ESCOLA EM TEMPOS DE BARBÁRIE


Por Prof Ms Jorge Ricardo Menezes da Silva

A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas. Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação. Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie. Mas não se trata de uma ameaça, pois Auschwitz foi a regressão; a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão. E isto que apavora. Apesar da não-visibilidade atual dos infortúnios, a pressão social continua se impondo. Ela impele as pessoas em direção ao que é indescritível e que, nos termos da história mundial, culminaria em Auschwitz. Dentre os conhecimentos proporcionados por Freud, efetivamente relacionados inclusive à cultura e à sociologia, um dos mais perspicazes parece-me ser aquele de que a civilização, por seu turno, origina e fortalece progressivamente o que é anticivilizatório. Justamente no que diz respeito a Auschwitz, os seus ensaios. O mal-estar na cultura e Psicologia de massas e análise do eu mereceriam a mais ampla divulgação. Se a barbárie encontra-se no próprio principio civilizatório, então pretender se opor a isso tem algo de desesperador.


Adorno


Prezados amigos educadores, incontáveis condições sociais objetivas, dentre elas podemos destacar a ausência de políticas públicas de educação, saúde e habitação, empurraram a humanidade para a barbárie. Se faz notória em todos os recantos de nossa cidade, como uma amostra do que acontece em nosso país e em outros cantos do mundo, a emergente falta de valor a dignidade humana que tem sido a grande tônica dos noticiários na TV, nos jornais impressos, no rádio e na internet.

Infelizmente vivemos em um mundo de contradições onde condições geopolíticas comparáveis à Suécia se confrontam com outras comparáveis as ocorrências emblemáticas das experiencias sudanesas de uma guerra infindável, de valores invertidos, de interesses pessoais. Não estou falando de outro lugar do mundo, estou falando do Rio de Janeiro, da cidade que poeticamente foi apelidada de Cidade Maravilhosa.

Há dezenove carnavais atrás, o bom e velho Império Serrano cantou em prosa e verso queria novamente ver o Rio dono do samba e do grande futebol, ter um forte banco na praça e que não fosse comitê eleitoral. Os símbolos culturais de uma cidade, com problemas crônicos de transporte, atualmente dominado por transporte alternativo, o que poderia ser uma alternativa virou regra, atendendo interesses a moda de Harry Potter, daquele que não pode ser nomeado.

Com problemas de violência, que ficava dentro das comunidades, que se avolumou e hoje as comunidades, tal qual as cidades-estado da antiguidade tem seus tribunais e conjunto de leis, que enquanto estavam no âmbito interno e não afetavam aos que vivem sob a tutela parcial ou total do estado, se fizeram de cegos. Hoje a barbárie, fecha o comércio, pára os transportes, suspendem as aulas, atacam delegacias e até invadem quartéis.

Nós os educadores, temos que avançar para além da perplexidade, precisamos agir como corpo docente, de forma racional e sistêmica, contribuindo naquilo que no concerne, que é a educação no sentido de criar laços de afetividade. Modelos de violência moral tais como o da chantagem (se vocês não se comportarem vou fazer uma prova de arrebentar), o do desespero/desequilíbrio (vou mostrar quem manda aqui!Fora de sala. Ou Você ou eu) e o da crueldade (você é burro assim mesmo ou fez cursinho) não são mais cabíveis.

Devemos investir nas relações interpessoais, valorizando potencialidades cognitivas e afetivas, hábitos e atitudes que valorizem a pessoa humana que habita o âmago de cada educando. Devemos investir na compreensão do outro, na percepção das interdependências, na cooperação mútua, no exercício do falar e no ouvir, no respeito a si próprio e ao outro, na compreensão da pluralidade de idéias e concepções.

Um bom modelo a ser seguido é o da professora Erin Gruwell, narrado no filme Escritores da Liberdade, que diante de um cenário de exclusão e discriminação a adolescentes vítimas das turbulências sociais, como gangues, drogas e fragmentação da família, consegue sobrepujar incontáveis adversidades e transformar seus alunos em gente, hominizar os humanos.

Para finalizar, Gonzaguinha deixa a receita:

Ontem o menino que brincava me falou

Que hoje é semente do amanhã

Para não ter medo que esse tempo vai passar

Não se desespere não, nem pare de sonhar

Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs

Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar

Fé na vida, fé no homem, fé no que virá

Nós podemos tudo

Nós podemos mais

Vamos lá fazer o que será


Despeço-me no espírito de Fernando Pessoa, que nos indica que navegar é preciso, com o propósito de engrandecer a pátria e contribuir para evolução da humanidade.

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